Amazônia sem diesel: avanços, limites e o que está em jogo até 2030

Na Amazônia brasileira milhares de pessoas ainda dependem de sistemas isolados movidos a diesel para geração de energia. O programa Energias da Amazônia, lançado com o objetivo de alavancar a descarbonização na região, já deu acesso à energias mais limpas a 1 milhão de pessoas em três anos, reduzindo emissões de gases de efeito estufa. Mas o avanço precisa acelerar. Especialistas em bioeconomia apontam a eletrificação como fundamental para o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis na floresta.

A Amazônia brasileira convive historicamente com uma realidade de insegurança energética marcada pela dependência de combustíveis fósseis. Em localidades distantes dos grandes centros urbanos e fora do alcance do Sistema Interligado Nacional (SIN) –grande malha de produção e transmissão de energia elétrica que conecta o Brasil– a geração de eletricidade ocorre majoritariamente por meio de geradores movidos a óleo diesel,uma alternativa cara, poluente e frequentemente sujeita a falhas de abastecimento.

Com a promessa de mudar esse cenário, o Governo Federal lançou, em 2023, o Programa Energias da Amazônia, iniciativa criada pelo Decreto nº 11.648/2023 e coordenada pelo Ministério de Minas e Energia (MME). O objetivo do programa é promover a transição energética nos chamados Sistemas Isolados da Amazônia Legal, substituindo gradualmente a geração baseada em combustíveis fósseis por fontes limpas e renováveis, com a consequente redução das emissões de gases do efeito estufa.

O Brasil promoveu um dos maiores processos de eletrificação do mundo por meio do Programa Luz para Todos, de 2003, que foi desenvolvido para trazer segurança energética para regiões isoladas de todo o país. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), desde sua criação, cerca de 17,9 milhões de pessoas foram atendidas em todo o território nacional. 

Entretanto, a implementação na região amazônica enfrenta obstáculos próprios, por conta da dimensão do território, sensibilidade do bioma, baixa densidade demográfica, regime de chuvas, entre outros pontos.

Na Amazônia brasileira milhares de pessoas ainda dependem de sistemas isolados movidos a diesel para geração de energia. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agencia Brasil

De acordo com o MME, entre os fatores que dificultam a eletrificação da Amazônia estão a dispersão das comunidades remotas e a  inviabilidade técnica, econômica ou ambiental da expansão de redes convencionais. “Por isso, é necessário adotar soluções diferenciadas, baseadas em tecnologias de geração limpa e sustentável integradas às atividades produtivas locais, de forma a promover o desenvolvimento socioeconômico. Além disso, os atendimentos devem respeitar os protocolos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e os processos de licenciamento ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), especialmente em áreas indígenas e unidades de conservação”, afirmou o Ministério em nota enviada à Climate Tracker América Latina.

Perante esse cenário característico, o Energias da Amazônia surgiu como uma solução pensada exclusivamente para a região, reunindo ações voltadas à ampliação do uso de fontes renováveis e em sistemas e à conexão de áreas isoladas. “Vários programas antecederam o atual. O Energias da Amazônia precisou ser criado porque parte significativa da Amazônia Legal ainda depende de sistemas isolados, muitas vezes movidos a óleo diesel: caros, poluentes e difíceis de manter”, explica José Matos, Diretor Executivo da Via Floresta e especialista em bioeconomia amazônica.

O Energias da Amazônia estabeleceu como horizonte reduzir em 70% a participação do diesel na geração de energia dos sistemas isolados da Amazônia até 2030 – saindo de uma base em que o diesel respondia por 80% da energia gerada nesses sistemas em 2022. O Ministério de Minas e Energia chamou o esforço de “o maior programa de descarbonização do mundo”. 

Climate Tracker América Latina teve acesso a dados do avanço do programa até o, momento fornecidos por Karina Araujo Sousa, Diretora do Departamento de Transição Energética, e Claudir Afonso Costa, Coordenador-Geral de Sistemas Isolados. Em 2023, eram 212 localidades no Sistema Isolado, dependentes de geração termelétrica a diesel e que emitiam o equivalente a 2,3 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Passados quase três anos do lançamento do programa, atualmente são 160 localidades, o que corresponde à inclusão de aproximadamente de 1 milhão de pessoas no SIN. Com investimentos totais estimados em R$ 5 bilhões (cerca de US$ 970 milhões) para promover a transição energética, espera-se evitar aproximadamente 1,5 milhão de toneladas de emissões até 2030.

Os investimentos em interligações elétricas na Amazônia já atenderam diferentes localidades em estados como Pará, Amazonas e Acre, segundo informações do MME. No Pará, foram destinados cerca de R$ 582 milhões (cerca de US$ 113 milhões) em obras concluídas entre 2023 e 2026, beneficiando mais de 90 mil pessoas e permitindo a substituição de aproximadamente 50 MW de geração a diesel. No Amazonas, os aportes somam R$ 310 milhões (cerca de US$ 60,2 milhões), com impacto para cerca de 220 mil habitantes e a desativação de 76 MW em usinas térmicas. Já no Acre, os investimentos de R$ 159 milhões cerca de US$ 30,9 milhões) atenderam aproximadamente 170 mil pessoas e viabilizaram a retirada de 69,4 MW de geração a diesel.

O principal marco foi a interligação Manaus–Boa Vista, concluída em 2025, que integrou Roraima ao SIN e beneficiou cerca de 650 mil pessoas. O projeto possibilitou a desativação de 566 MW de usinas termelétricas, reduzindo significativamente as emissões. Foi um salto importante, que acelerou significativamente a descarbonização – que até 2024 avançava mais lentamente do que o necessário para atingir a meta de 70% de redução do uso do diesel na região até 2030. 

Para além dos benefícios ambientais, a chegada da energia renovável tem produzido transformações econômicas em comunidades tradicionalmente excluídas da infraestrutura energética convencional. Foto: Agência Brasil

A interligação também gerou uma economia anual de aproximadamente R$ 1,9 bilhões (cerca de US$ 369 milhões) da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), que é o encargo pago na conta de luz por todos os brasileiros para subsidiar o custo de termelétricas em áreas isoladas do país. 

A urgência da transição energética na Amazônia foi destacada no relatório “Energia: As Amazônias na agenda de transição”, publicado em abril pela rede Uma Concertação pela Amazônia, em parceria com o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

O relatório ressalta que a transição energética na região não pode ser pensada apenas sob a ótica da redução de emissões.  O acesso à energia de qualidade deve ser entendido como um instrumento de desenvolvimento social, fortalecimento econômico e redução das desigualdades históricas enfrentadas pelas populações amazônicas.

A publicação também chama atenção para a necessidade de modelos energéticos adaptados às realidades locais, respeitando características geográficas, culturais e socioeconômicas dos diferentes territórios amazônicos.

Energia renovável impulsiona a bioeconomia amazônica

Para além dos benefícios ambientais, a chegada da energia renovável tem produzido transformações econômicas em comunidades tradicionalmente excluídas da infraestrutura energética convencional. “A infraestrutura energética não deve ser vista apenas como política de eletrificação – essa é só a primeira camada. Ela deve ser entendida como uma infraestrutura habilitadora para a economia como um todo na Amazônia, ou seja, parte da base pré-competitiva e pré-produtiva de qualquer economia, uma função estrutural para a transformação territorial”, disse Matos.

O Energias da Amazônia estabeleceu como horizonte reduzir em 70% a participação do diesel na geração de energia dos sistemas isolados da Amazônia até 2030. Foto: Agência Brasil

O acesso contínuo à eletricidade estimula a bioeconomia amazônica, ampliando a capacidade produtiva local e criando novas oportunidades de geração de renda. “Há um crescimento significativo de empreendimentos nos últimos cinco anos, o que demonstra uma ligação forte com o novo contexto da bioeconomia que vem sendo discutido desde 2020”, destaca Gabriela Savian, diretora de Políticas Públicas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). 

Em comunidades rurais e indígenas da Amazônia, sistemas de energia solar vêm permitindo a utilização de bombas para irrigação, máquinas para beneficiamento de produtos agrícolas, equipamentos para processamento de alimentos e sistemas de refrigeração para conservação da produção. Na prática, isso significa maior valor agregado para produtos da sociobiodiversidade amazônica e redução de perdas pós-colheita.

“Muitos produtos ligados ao agroextrativismo são altamente perecíveis — carnes, derivados e peixes, por exemplo — e exigem refrigeração e entrepostos para acondicionamento antes de chegar ao distribuidor final, o que já é um desafio logístico típico da Amazônia. Sem eletricidade local, a coleta nas comunidades fica mais difícil, especialmente quando se depende de barcos menores para acessar os afluentes em horários variados”, aponta Matos.

A bioeconomia na Amazônia é também uma das estratégias de preservação da floresta, como mostra o livro “Bioindústria na Amazônia: Contribuições para o desenvolvimento sustentável na Amazônia Legal”, elaborado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pelo IPAM. “No levantamento da bioindústria na Amazônia, elencamos uma metodologia alinhada a condições de sustentabilidade, manutenção das florestas, repartição de benefícios e diversificação da produção. Essas são premissas importantes para considerarmos a produção na Amazônia como parte do escopo da bioeconomia”, explica Savian, que é uma das autoras do material.

Entretanto, ainda existe uma barreira em muitas das cadeias produtivas amazônicas, por não conseguirem agregar valor aos seus produtos, comercializando matérias-primas de baixo valor agregado. “Levantamos cadeias produtivas ligadas à bioeconomia – cacau, açaí, café, castanha (da Amazônia, ou do Pará, dependendo da região) – entre outras, totalizando cerca de 14 cadeias produtivas principais. Identificamos municípios que produzem bastante matéria-prima dessas cadeias, mas que não necessariamente beneficiam esse produto. Por isso, demos esse contorno para trazer a bioindústria enquanto perspectiva de beneficiamento dos bioinsumos”, detalha Savian, destacando a importância de um abastecimento de energia elétrico seguro, para manter estruturas de beneficiamento. 

Castanheiras na floresta da Terra Indígena Erikpatsa, do Povo Rikbaktsa. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Na cidade de Acará, no estado do Pará, a bioindústria amazônica Paraoil faz o processamento de amêndoas para obtenção de óleos e manteigas vegetais, que são utilizados na indústria de alimentos, cosméticos e farmacêuticas. A empresa surgiu em 2019. Até então, a família trabalhava apenas com a extração. “Meu pai trabalhava com sistema florestal, mas até então somente com a venda da amêndoa seca para atravessadores”, contou Gilberto Hirokazu Nobumasa, diretor e fundador da Paraoil. 

“Atualmente a Paraoil trabalha com 70 famílias de cinco comunidades de Acará e dois agricultores de Concórdia. Em 2025, a produção foi de 20 toneladas de produto obtido a partir de processamento de 80 toneladas de amêndoa”, conta. Segundo Nobumasa, se as comunidades tivessem acesso a uma energia mais segura, parte do processamento poderia ser feito nos territórios. “A maioria dos fornecedores de amêndoa têm apenas energia monofásica (energia rural) com variações frequentes e interrupções. Essa limitação energética nas comunidades afeta o processo de verticalização. Alguns processos hoje feitos na fábrica, como trituração e secagem, poderiam ser realizados nas comunidades”, explica.

No processo agrícola das comunidades fornecedoras da Paraoil, ainda predominam os motores à combustão. Em muitos casos há energia elétrica implantada por programas governamentais, como a energia solar, mas com geração limitada, que não suporta a demanda da produção. 

A bioindústria está relacionada com o conceito de beneficiamento e transformação do produto. Nesse sentido, é fundamental compreender o potencial da Amazônia, mas adaptando para a realidade do bioma. “Precisamos entender a bioindústria ligada à bioeconomia amazônica como uma indústria fortemente relacionada à floresta enquanto infraestrutura viva, às comunidades locais e à produção a partir dessas premissas”, explica Savian.

Para ela, a Amazônia é uma infraestrutura viva, que responde aos estímulos e intempéries, de forma que deve-se partir da floresta para a indústria. “A bioindústria na Amazônia está fortemente relacionada aos produtos florestais. Por isso precisamos “amazonizar” o conceito de bioindústria, e não industrializar a Amazônia”. 

A transição energética e a bioeconomia são agendas complementares. Sem acesso confiável à energia, iniciativas produtivas sustentáveis enfrentam limitações que comprometem sua competitividade e capacidade de crescimento. Nesse sentido, o Energias da Amazônia atua indiretamente no desenvolvimento da bioeconomia amazônica, considerando que a energia é uma etapa imprescindível na estruturação da bioindústria. 

Segundo Savian, existem três fatores necessários para gerar um bioproduto: padrão, responsável pela qualidade; sazonalidade, por manter o fornecimento de matéria-prima ao longo do ano; e escala, capacidade de regular a produção. “A questão energética está muito ligada ao padrão e a disponibilidade ao longo do tempo. As comunidades locais não conseguem manter as questões fitossanitárias de qualidade do produto, nem a continuidade do fornecimento, porque é preciso ter estrutura de estocagem — não dá para receber toda a matéria-prima de uma vez e depois não receber mais ao longo do tempo. Isso vale especialmente para óleos e produtos não madeireiros”, explica.

Ela ainda complementa, dizendo que há outras duas questões importantes relacionadas à infraestrutura, além da energia. Logística, com estrutura hidroviária, rodoviária e capilaridade de escoamento da produção. E regulação fundiária, considerando as áreas de proteção, a disputa por terras e propriedades, assim como atuação de grileiros. Por fim, de forma transversal, aponta a segurança jurídica, para garantir investimentos.

A substituição gradual desses sistemas à combustão por fontes renováveis é considerada estratégica tanto para o cumprimento das metas climáticas brasileiras quanto para a promoção do desenvolvimento regional. 

Nesse sentido, Matos alerta sobre lacunas que o Energias da Amazônia ainda tem que preencher. “O programa acerta ao enfrentar um problema energético de base, mas precisa avançar para uma «segunda geração», que trate energia como infraestrutura de desenvolvimento, e não apenas como substituição tecnológica do diesel. Isso inclui soluções integradas para produção local, facilitação do agroextrativismo e condições de vida que evitem que famílias precisem cortar madeira para vender carvão ou tora bruta de mogno a valores que hoje não cobrem nem a cesta básica.”

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