Talia Gavião, a jovem que aprendeu a sussurrar para o fogo

Primeira mulher a ser brigadista no Maranhão, a indígena do povo Gavião transforma conhecimento ancestral sobre o fogo em estratégia de adaptação climática.

Antes mesmo de terminar o café da manhã, Talia Gavião pega o celular para checar suas mensagens. Cada notificação pode significar um alerta de fumaça na Terra Indígena (TI) Governador, no Maranhão. Se for o caso, ela sabe que talvez só volte para casa dias depois. Aos 28 anos, ela é a primeira mulher a integrar uma brigada de fogo no estado e hoje é chefe de uma equipe com outras 3 mulheres e 13 homens.

O trabalho dura o ano inteiro, mas metade desse tempo não é remunerado. O contrato formal com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) cobre seis meses de atuação no combate aos incêndios, mas, nos outros seis, os brigadistas sabem que é preciso fazer um trabalho de prevenção, manutenção da base e preparação para a temporada crítica – o que acabam executando de maneira voluntária. “A gente só para nas férias de dezembro e janeiro. Em fevereiro, já começa de novo», diz.

Na Amazônia, o fogo não é um fenômeno natural recorrente. A maioria das ocorrências de incêndios florestais está ligada à ação humana, como o uso do fogo para manejo de pastagens ou para queimar áreas recém-desmatadas. Na estação seca, a vegetação fica mais suscetível às chamas, que podem escapar dessas áreas e atingir a floresta.

Em 2024, houve um recorde de queimadas, agravado por uma seca histórica. Foi nesse ano que a política federal passou a priorizar, além do combate, a prevenção, o monitoramento e o uso controlado do fogo. Segundo o MapBiomas, 3,1 milhões de hectares foram queimados na Amazônia em 2025, a menor área desde o início do monitoramento por satélite, em 1985, contra 15,8 milhões em 2024.

Apesar da queda, o fogo segue como uma importante pressão sobre o bioma e a dedicação à brigada ocupada quase todo o tempo de Talia. No primeiro semestre, quando faz o trabalho de forma voluntária,  ela vive apenas do Bolsa Família, um auxílio financeiro do Governo Federal de menos de um salário mínimo (R$1.621,00, cerca de US$ 318).. «Muitas vezes, tive que escolher entre o trabalho na brigada e os meus filhos. É um desafio muito difícil», relata. 

A chefe tem um filho de 14 anos e outro de quatro. Por boa parte da vida do mais velho, ela foi mãe solo. Depois se casou e hoje é o marido que assume a responsabilidade de ficar em casa. “O que aquece meu coração é que meus filhos falam que sentem muito orgulho, que um dia querem crescer e ser iguais à mãe», declara.

É no tempo das secas que o trabalho exige mais. “Tem fogo todo dia. A gente sai e não sabe a hora de voltar», conta. Quando o incêndio ocorre em áreas mais distantes, as equipes costumam permanecer de dois a três dias em campo, onde montam uma espécie de acampamento.

O incêndio que mudou a trajetória da jovem indígena

A história de Talia com os incêndios inicia quando ela tinha apenas 17 anos e viu seu território coberto de fogo. «A fumaça era tanta que a gente não conseguia dormir. Teve gente que ficou doente por causa disso». A TI Governador reúne três povos – Gavião Pykopjê, Guajajara e Tabajara – e tem aproximadamente 42 mil hectares de área. Em 2015, 18,4 mil hectares foram queimados – quase metade da área total. 

Dois anos depois, em 2017, outro grande incêndio voltou a atingir a terra indígena. Foi quando Talia decidiu abandonar o sonho de seguir carreira militar. Em vez do uniforme verde do Exército, escolheu a farda amarela dos brigadistas. “A gente tem o nosso sustento da natureza. Depois desses anos críticos, abrimos os olhos para a necessidade de agir”, reflete. 

A brigada indígena da aldeia Governador foi criada em 2013. No início, apesar de formada por indígenas, era comandada por um chefe não indígena ligado ao Ibama. Aos poucos, a comunidade conquistou espaço para assumir a coordenação das operações.

Ali, a vegetação é 80% do bioma Cerrado e 20% da Amazônia, uma mistura de características com a qual só quem é do território sabe lidar. “Ainda aparecem algumas plantas típicas da Caatinga também”, pontua Talia.

Talia fazendo o planejamento espacial das atividades do dia. Crédito: Eliton Gavião

Hoje é ela quem toma as decisões da brigada. É reconhecida por ser uma liderança calma, que escuta antes de falar. “Nunca gostei de fazer nada às pressas e espero sempre ouvir do grupo para depois tomar uma decisão. Só assim dá certo», pondera.

O trabalho de Talia inclui coordenar homens mais velhos, organizar equipes, definir estratégias de combate e decidir onde o fogo pode acontecer antes da estação seca. 

Lá atrás, aos 20 anos, o teste de aptidão física feito para entrar na brigada voluntária incluiu uma caminhada de 2.400 metros, em 30 minutos, carregando nas costas uma bomba costal (equipamento usado para levar e pulverizar água no combate aos incêndios) de 20 litros. 

Mesmo após aprovada, a jornada foi permeada por obstáculos, especialmente por ser mulher. “De primeira, eram só os homens que resolviam tudo, inclusive em Brasília, mas hoje a gente tem ganhado esse respeito. Ainda tem preconceito, inclusive por ser um serviço pesado, mas temos mais mulheres tentando; uma incentiva a outra», conta.

Inspiradas pela atuação da Talia, hoje outras mulheres compõem a brigada, como Paula Gavião, que ingressou na equipe este ano. “Eu já fazia parte da brigada voluntária e participei de um curso de formação para mulheres e me interessei», lembra.

“Eu vejo que ter uma chefe mulher é uma conquista para todas nós. A Talia é uma pessoa exemplar e ensina que podemos chegar mais longe, como ela é hoje chefe», ressalta. Como mãe, Paula reforça que o trabalho vem junto de muitos desafios, principalmente na conciliação da vida doméstica com a profissional e avalia que ter uma chefe mulher também faz a diferença na compreensão dessa complexidade. “Não é fácil, a gente sente saudade da família e é muito cobrada dentro de casa», relata.

Soma-se a isso os próprios riscos da profissão, de se expor ao perigo dos incêndios e precisar ser flexível para contribuir com as demandas de outras regiões e até de outros estados, quando é solicitado pelo Ibama. “Imagina. Às vezes, nossos filhos estão doentes e a gente está em meio ao fogo, com medo do incêndio e ao mesmo tempo preocupada com o que está fora do nosso alcance. É bem difícil», diz.

Hoje, a brigada é composta por 3 mulheres e 13 homens. Crédito: Eliton Gavião

Sussurar para acalmar o fogo

A sensação de medo ao ver os incêndios florestais se alastrarem sem controle até hoje está marcada na memória de Talia. “Quando completei três anos de trabalho no Prevfogo teve muito incêndio e eu não sabia que já estava grávida do meu segundo filho. Passei mal em campo e só depois do exame que soube que estava com dois meses de gestação», lembra.

Com a chegada do caçula, Talia passou um tempo afastada e depois de um ano em que retornou ao serviço teve que encarar de frente o fogo novamente. “Em 2023, teve muito fogo no território Governador. Fiquei com medo, porque fazíamos combate nortuno e pernoitamos próximo à linha do fogo. Senti medo do fogo, de animais como a onça pintada e da exaustão tomar conta. Passamos 1 mês em campo, dormindo na mata», recorda.

A chefe da brigada acredita que, em tempos de emergência climática, o seu papel enquanto mulher indígena é central na busca por uma transição justa. Por isso, ela valoriza também o  conhecimento passado de geração a geração. Isso envolve identificar os materiais da natureza para substituir um isqueiro, por exemplo, quando está em campo, como pedra, algodão e óleos; e até mesmo o modo que enxerga e dialoga com o fogo.

«Conversando com os nossos anciões, eles falam também que quando o fogo vem com intensidade na nossa direção, a gente tem que sussurrar, ou assobiar para o fogo, para ele se acalmar. Ou quando vai acender uma fogueira, a gente grita para animar o fogo”, narra.

Isso porque, segundo ela, o povo Gavião enxerga o fogo como um ser vivo que escuta. Portanto, a visão cosmológica que se passa de geração a geração é de que é preciso conversar com o fogo, com a mata e todos os seres ao redor.

Quando criança, Talia ouvia que era preciso respeitar o fogo e não brincar com ele. Que esse elemento é sério – e perigoso. “O trabalho na brigada, na verdade, mudou a minha percepção. Hoje vejo que tem o fogo bom e o fogo ruim”, reflete.

Embora pareça contraditório, nem todo fogo é inimigo da floresta. Quando praticado de forma planejada, funciona como uma medida de prevenção: usa-se um fogo pequeno e controlado para eliminar material orgânico que poderia alimentar um fogo muito maior, mais difícil de conter e mais destrutivo para a floresta, a fauna e as comunidades.

Agora, a brigada indígena busca aliar o saber tradicional ao aparato tecnológico para lidar com o fogo. Os profissionais, atualmente, contam com equipamentos de proteção individual (EPIs) e cada esquadrão precisa sair equipado com soprador, motosserra, combustível, água, alimentação e demais ferramentas necessárias para permanecer horas (ou dias) em campo. Além disso, possuem equipamentos para monitorar a temperatura e o vento e contam com pontos de observação, em áreas mais altas, para identificar com celeridade os focos de calor.

Cada cacique da terra indígena também manda para Talia, via WhatsApp, aviso sobre qualquer suspeita de queimada. Adicionalmente, a brigada faz ronda diariamente. Segundo os brigadistas, o fogo encontra facilidade em se alastrar porque as chamas encontram vegetação mais ressecada, ventos mais imprevisíveis e períodos de estiagem mais prolongados. Essa percepção de quem está no território acompanha o que a ciência vem mostrando. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que o aquecimento global aumenta as condições favoráveis para incêndios florestais em diversas regiões do planeta, especialmente por causa das temperaturas mais altas, da redução da umidade e das secas mais frequentes e intensas. Na Amazônia, esses fatores prolongam a temporada de fogo e ampliam o risco de incêndios de grandes proporções, tornando o trabalho das brigadas cada vez mais complexo.

Ainda assim, os esforços da brigada têm demonstrado resultados, com uma queda drástica do território queimado: menos de 10% da TI atingida por incêndios nos dois últimos anos. Mesmo em 2023, quando houve impactos do El Niño, a brigada conseguiu controlar para a devastação se limitar a cerca de 17% da área total.

União de conhecimentos para manejar o fogo

Um fator crucial para alcançar esses números foi reconhecer o conhecimento tradicional sobre o uso do fogo. “Ancestralmente, o manejo do fogo já era feito, com outros nomes. Houve uma época que tinha a lei do Fogo Zero, o que proibia qualquer uso do fogo, mas isso mexia com a nossa cultura e não dava certo”, analisa. 

Ao longo dos séculos, os povos indígenas sempre usaram o fogo para manejo dos ecossistemas, para a caça, preparo de alimentos, limpeza de áreas para o cultivo agrícola e celebrações espirituais, dentre outros fins. Desde 2019, com a chancela do Ibama, a brigada da aldeia Governador já se prepara para a queima controlada das roças e para a queimada prescrita, que é a aplicação intencional e planejada de fogo em áreas de vegetação para reduzir o excesso de material seco e evitar grandes incêndios florestais.

O Governo Federal reconheceu esse conhecimento tradicional e sancionou a Política Nacional do Manejo Integrado do Fogo (PNMIF). Assim, nos meses que antecedem o período seco, os esquadrões identificam as áreas prioritárias e executam essa tarefa. “A queima prescrita nos favoreceu muito. Os incêndios estavam afastando os animais, as frutas, perdemos até algumas nascentes dos rios», afirma Talia.

Cuidando do futuro, desde o presente

O trabalho não se resume ao combate ao fogo. Talia e seus colegas também sensibilizam a comunidade sobre esse manejo, e, desde que entrou na brigada, ela coloca as próprias mãos na terra para plantar mudas em Sistemas Agroflorestais (SAFs),que combinam o cultivo de árvores nativas e plantações agrícolas em uma mesma área. O plantio serve para reflorestar e restaurar áreas de nascentes que secaram, ao perder a proteção da mata ciliar. 

“A floresta é tudo para nós. O nosso supermercado é isso aqui tudo. Então, a gente faz questão de preservar desde a prevenção de incêndio até o reflorestamento», conta o brigadista Jonas Gavião, que comenta que os impactos do trabalho árduo são sentidos pela população de diversos modos, como a alimentação e a saúde respiratória, pela queda de queixas relacionadas à neblina.

Uma das tarefas da brigada é cultivar mudas para serem plantadas em área de reflorestamento da terra indígena. Crédito: Eliton Gavião

Para Talia, é inegociável atuar na brigada do fogo, porque ela está em uma dupla linha de frente da crise climática – como agente de transformação e como pessoa impactada. Ao mesmo tempo em que ajuda a impedir que incêndios florestais destruam a floresta e liberem grandes quantidades de carbono para a atmosfera, faz parte de um dos grupos mais expostos aos impactos da falta de ação climática.

Estudos recentes alertam que brigadistas e bombeiros florestais estão cada vez mais vulneráveis aos efeitos da exposição prolongada ao calor e à fumaça tóxica, um risco que cresce à medida que os incêndios se tornam mais frequentes e duradouros. 

Em paralelo, se há perda de vegetação, ficam comprometidos os recursos naturais dos quais a comunidade depende para viver. Por isso, como chefe, seus objetivos para o futuro breve são dois: que os brigadistas consigam ser remunerados integralmente o ano todo e que possam receber mais capacitações em drone e informática.

Como mulher, mãe e filha da Aldeia Governador, a meta é uma só: que muitas outras gerações possam continuar tomando banho nos rios, colhendo fruta do pé e tendo as árvores e animais sagrados para manterem as tradições vivas. 

Talia, orgulhosa, em frente à área de reflorestamento que a brigada mantém na aldeia. Crédito: Alice Martins Morais

Este artigo foi produzido por Climate Tracker América Latina com o apoio de Oxfam

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